Meditando na Adega
por Gilvan Passos
Esta coluna é atualizada às Sextas
A impulsiva carta de vinhos dos enófilos
Essa matéria destina-se especialmente aos donos de restaurantes que tem a difícil missão de criar uma Carta de Vinhos que agrade no mínimo a maioria dos seus clientes enófilos. A julgar pelos neoenófilos a peleja é definitivamente impossível, porque para estes, a crítica, ainda que infundada, é algo recorrente, visto que falta-lhes compreender o vinho como uma bebida de ocasião, não de elucubração. Diante disso, o restaurante só tem um caminho seguro a seguir, não se afastar do seu propósito enogastronômico, segundo o qual pratos e vinhos vibram na mesma frequência da clientela. Como o próprio nome diz, enófilo é o amigo do vinho, não do dono do restaurante, e apenas por isso, ele já terá motivos de sobra para não poupar críticas (as vezes severas), mesmo às cartas mais realistas. Já ouvi crítica destes a cartas de barzinhos simplesmente porque elas não contemplavam grandes vinhos. Outras vezes as queixas eram porque aquela carta (a mais completa da cidade), não trazia aquele vinho branco, caro e inusitado, de nome impronunciável, aprendido a duras penas, que apenas aquele apreciador criticante adorava. Houve ainda quem reclamasse de cartas (quase perfeitas), porque elas não traziam os vinhos nota 100 do Robert Parker, e por aí vai. Longe de querer ignorar todas essas opiniões, o restaurante precisa priorizar a preferência de seus clientes habituais, não dos clientes eventuais. Isso porque é inconcebível que uma carta de barzinho cuja proposta é atrair jovens para o happy hour do final de semana, venda vinhos de meditação. Como é inconcebível que o restaurante, qualquer que seja, insira na carta de vinhos, rótulos esquisitíssimos apenas porque um cliente eventual e pontual criticou-a por não tê-los. Apesar de já ter dito isso outras vezes, vale a pena repetir: a carta de vinhos ideal, não é a que tem mais vinhos, os vinhos mais inusitados, nem os mais caros do mundo, a carta de vinhos ideal é aquela que está em sintonia com o cardápio, com a proposta da casa e com os anseios dos seus clientes rotineiros. Agora uma dica: quando alguém fizer uma crítica descabida a sua carta, antes de investir no rótulo esquisito que ele considera inaceitável não ter, contabilize qual a frequência dele no seu restaurante. Se ele for um cliente eventual, ignore-o, ou você é quem terá que beber o vinho que você talvez nem goste.
Agenda do Vinho da Cidade
28 e 29 de fevereiro – Curso Temático Avançado de Vinhos Portugueses na sala de prova da Adega São Cristóvão. Informações e inscrições pelo fone: 4006-6370.
02 a 04 de março – Evento enogastronômico na Pousada Enseada dos Amores em São Mirguel do Gostoso. Com dois jantares harmonizados e uma degustação de vinhos espumantes do mundo. Reservas pelos fones: (84) 3693-2027 / (84) 3693-2070 e (84) 9461-9182.
Vinho da Semana
Cesari Jéma 2005 IGT. Vinho da região do Veneto, Itália, elaborado por: Gerardo Cesari, com 100% de Corvina Veronese, a casta local mais importante. A classificação IGT, surgiu em 1992 para abrigar os Supertoscanos – vinhos rebeldes da Toscana - que infringiram a legislação italiana com o uso de castas e métodos de produção não permitidos, conquistando sucesso de público e crítica. O Jéma não é toscano, mas é extraordinário. Mostrou-se pleno e complexo nos aromas e escandalosamente aveludado na boca, como só o fazem os grandes vinhos italianos. Provei-o no encontro da SAV. Uma oferta do amigo Benício Siqueira. Indisponível na cidade.